BRASIL, Homem

 

    As Vísceras de Vinícius
  Crônicas de uma casa assassinada


 

 
     

       


     
     
    De Ti Não Me Moves Tu Sem Mim



    So difficult


    De uma casa com vários quartos, largos, presume-se que esta seja bem estruturada fisicamente, fortemente alicerçada, aconchegante e cujas portas várias não se imagine ouvir trancarem, mesmo estando-se distante dessas portas, em um outro aposento qualquer. Se há permissão para transitar de um cômodo a outro sem restrições –, embora a distância entre eles seja enorme e os corredores e escadarias que os interligam estejam escuros –, então a intercomunicação, a troca de informações e as atividades coletivas serão facilmente realizadas, os benefícios de uma saudável correspondência íntima serão desfrutados mutuamente, de modo intenso, prazeroso e contínuo.

    Entretanto ao realizarmos certas tarefas individualmente, de modo egoísta, tendemos ao isolamento, recolhendo-nos submersos por detrás de uma porta ruidosamente cerrada. Iludidos, crendo em nosso domínio sobre o espaço em que nos trancafiamos – e também sobre os acontecimentos que ali se desenvolvem –, acreditamos estar num mundo real, fazendo parte essencial dele, estudando-o e nele agindo, retirando dalí aquilo que de melhor pudermos adquirir.

    Depois de tudo, após a batalha travada, derrocamos, tropeçando em algumas pedras preciosas cujos valores e brilhos sejam inúteis. Inúteis ao entrarmos em contato com outras tribos que, também ironicamente, resolveram trancar-se para melhor conhecer e dominar seu território.

    E assim flui a existência conceitual de um pobre garimpeiro, ao trabalhar conhecimentos e técnicas, diversificados em seus poderes transformadores e arduamente compreendidos durante a transmissão dos mesmos.

    A casa de largos espaços, vãos de um mundo, com seus agrupamentos sociais e sua multiplicidade de culturas só existe em uma infindável correlação, mesmo que para isso o Tempo nos leve a percorrer longínquas distâncias. Só haverá espaço para que possamos sepultar as dificuldades de comunicação que porventura existirem.

    Interligar, tornar acessível a todas as tribos o conhecimento peculiar de uns poucos, atravessando contextos e conteúdos amplos, complexos, arrebentando portas severamente trancadas, contornaremos a dificuldade maior: poder circular em nossa própria casa, sair e entrar pelos diversos ambientes sem se dar conta da sombra estranha da sensação de ter que ser expulso de nossa própria casa para podermos, com ou sem grandes dificuldades, atravessar a janela que nos leva ao quarto mais próximo.




    Escrito por Matamoros às 12h51
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    ad aeternum


              Todavia não seja necessário reafirmar: toda e qualquer forma de poder é uma forma de morrer. Por nada. Mas os homens, incinerados por suas obscuras centelhas de pensamentos, vivificam viciosamente este cáustico jogo pré-primitivo, herança ancestral de um pavoroso (e virtual) período pré-extinção, no qual se acreditava necessário destroçar, subjugar, ardilosamente manipular os ruidosos trovões cerebrais e físicos de forças igualmente humanas e tão primitivas quanto eles próprios: nosso único legado (?).

             Falta-nos (e Rimbaud estava certo!), não a nós mesmos, peçonhentos seres de idéias ególatras e supostamente seguras, mas ao nosso desejo, “música sábia”. Que mitigue as dores de cabeça e suavize os estrangulamentos involuntários de nossos corações, quando, ao invés disso, nossos corpos e mentes agem violentamente, em uma predisposição absurda de soldados voluntários em guerra.

             Podemos mais! Mais que tudo isso tudo. Temos o Eterno, calcado na transitoriedade cotidiana e simples – imperceptível – que nos reduz a dimensões microscópicas e nos esbofeteia a máscara pênsil da face, fragmentando-a irreversivelmente; temos o sono real da tranqüilidade, o deitar macio da cabeça no travesseiro após a trégua pedida à consciência.

             Creio, às vezes esquizofrenicamente, na reverberação total dos jogos de nossas almas antigas e essencialmente lúdicas, onde o Prazer e a Sabedoria em suas atividades meteóricas sugeriam as leis e a ausência de prisões destinadas àqueles que possivelmente não as cumprissem; onde perscrutávamos rios de águas explícitas e oceanos densos com incomensurável força somente comparada a um amor exigente. Lá, longe, onde a Eternidade ofereceu seus únicos e últimos incensos ao ar indócil que hoje se recusa a beijar-nos os olhos frios, fixos e teimosos.





    Escrito por Matamoros às 19h37
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    Via Avessa


    Ontem foi mostrada no último telejornal da noite uma matéria extensa sobre o fluxo a que uma consciência pode chegar, disparando seus neurotransmissores em direção oposta ao pensamento racional. E o que seria irracional em nosso pensamento, senão o amor e suas variantes, a paixão, a tara, o tesão? Por isso tudo (como se não bastasse mais nada), os espectadores presentes em minha humilde saleta, atirados às almofadas e aos sofás puídos, refizeram o percurso das grandes assembléias romanas e barulhentas e intermináveis: foram aos extremos em seu arroubos de defesa da honra caprichosa, mesmo sem que houvesse mulher nova, bonita e não tão carinhosa a fazer um homem daqueles chorar sem sentir dor.

    Acontece que o que estava mais que visto naquela ocasião eram os dissabores e insucessos dos partícipes daquela balbúrdia fescenina, onde rebordoavam palavrões, discursos infeccionados e alardeados pelos mais ébrios e, dessa forma, eu, ‘consciente’ de tudo o que viria a acontecer, me espantava com uma condescendência que crescia, sendo alimentada em meu átrio mais amplo, atônito e suado como o copo de vidro em minha mão, assistindo teso o desenrolar da corda que viria a pender no cadafalso dos enforcados.

    Sim, pois que todos aqueles homens sapiens teriam seu momento de glória frente è turba, a corda grossa ao pescoço e o nada do chão debaixo de seus pés. Puft! Já era. Ora, um deles se entrega e chora, outro corre a sair desembestado pelo terraço e lá finge que vai mijar, mais dois ou três encerram a batalha refazendo seus drinks com pedras finas de gelo, pois que era o fim de tudo e eu dava salvas de palmas, sozinho, na sala, diante da televisão já sem som.

    O que pode haver de tão difícil compreensão e forte, em seu aspecto sedutor, o corpo, quando nos deixamos levar pela inconsciência em nossos processos psíquicos? Dela vem todos os desejos e desesperos que presenciam, pela janela, sucumbir o sapiens ao seu estado adulto (=estatuto) e nele se redescobrir a criança imperfeita que gostaria de ser a todo custo. Ou melhor, voltar a ser aquela criança. Ou desistir de ser o adúltero adulto que se esconde sob a capa mágica da invisibilidade. Mas essa capa é de tamanho pequeno, e só cobre os membros superiores, deixando de fora os pés, único recurso usado para trafegar no lamaçal, pois que a cabeça fixa no pescoço e os intestinos intestinados nela já não servem para lidar com a celeridade do fluxo disparado, quando jorram o esperma e estamos prontos para uma nova crise absoluta de racionalidade.




    Escrito por Matamoros às 23h43
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